Sempre Acerte o Alvo

 

Então, como vai ser? Pensou na nossa oferta?


Ele fez a pergunta enquanto acendia o velho cachimbo. Deu uma boa tragada e soltou bem no rosto do proprietário.

Não posso… coff!.. vender tão barato. - respondeu o senhor de uns sessenta anos que já aparentava uns oitenta, tanto fora seu esforço em manter aquele pequeno armazém herdado de seu pai.

Há poucos anos o lugar era próspero. A pequena cidade tinha uma economia boa devido a exploração do carvão. Com os motores a vapor tomando conta das fábricas, navios e trens, o que não faltava era comprador. Mas aí veio a guerra. A demanda pelo produto aumentou. E o que era para ser bom se tornou a desgraça da cidade tão afastada do mundo, ligada a este apenas pela estrada de ferro. Homens, digamos, oportunistas, se aproveitaram da cidade indefesa e para a qual sabiam que o governo, ocupado com a guerra, não se importaria. Bloquearam a linha férrea e dominaram a cidade, armados até os dentes. Não que fossem muitos. Talvez uns vinte ou trinta. Mas para uma cidade desprovida de seus jovens mais fortes chamados à guerra, eles pareciam um exército. Obrigavam os homens que sobraram, as mulheres e as crianças a trabalharem nas minas. O carvão extraído era revendido por altos preços. E o salário recebido não era nem a metade do que recebiam quando as minas eram de empresas ligadas ao governo. Para piorar a situação, o chefe deles, criativamente chamado de Chefão, resolveu ser dono da cidade. Começou comprando o saloon. Depois resolveu expandir comprando a baixíssimos preços os comércios do local.

Trinta mil é um bom preço. A cidade está falindo. Logo você terá que abandonar esse lugar e sair sem nada.

A cidade não está falindo. Vocês é que estão ficando com todo o lucro da cidade e impedindo os cidadãos de virem comprar aqui.

Nossa, que calúnia! É muito atrevimento seu fazer essas acusações. Tô vendo que tem culhões. Respeito isso. Mas o cara que eu represento, não. Sabe a quem eu represento, não sabe?

Os quatro capangas sujos de poeira e com revólveres em coldres com largos cintos cheios de balas não deixavam dúvidas.

O último homem que falou assim dele se arrependeu das palavras e hoje está quietinho na dele.

Quieto na dele”? O referido homem resolveu se rebelar. Incentivou uma greve. Não trabalharia, mesmo que para isso tivesse que passar fome. E passou. Ele e alguns mais. No entanto, um a um, eles foram vencidos pela própria fome. Apenas um resistiu. Apenas ele. Só que o Chefão não queria que ele morresse de fome. Não queria um mártir para inspirar os outros. Assim, adotou uma estratégia. Se ele não comesse, ninguém mais comeria. Se morresse de fome, levaria todos os amigos com ele para o túmulo. Mesmo assim ele persistiu. Mas os amigos, vendo seus amados tendo fome, se tornaram seus inimigos. E sob uma mistura de súplicas, protestos e até surra, ele se rendeu. Não demorou muito para ele ser mais um Zé Ninguém esquecido na multidão e desaparecer.

O homem, que fedia tanto a fumo quanto a uísque, foi se aproximando do proprietário, fazendo este recuar até ficar encurralado por uma parede.

Vou ser legal contigo. Vinte e cinco mil.

Hein?

Estou sendo generoso. Seu negócio está se desvalorizando rápido.

Dizer que o pobre homem não estava com medo seria mentir. Todo aquele “ar” de homem polido e educado assustava mais que os sorrisos sem dentes de alguns dos capangas.

Vinte. Melhor decidir logo.

Eu… Eu..

Quinze.

Cento e cinquenta mil!

Todos olharam em direção à voz. Dois jovens homens estavam atrás do balcão, se servindo de alguma bebida.

Quem são vocês?

Os novos proprietários. Bem, se esse senhor aceitar nossa oferta. - respondeu o mais velho deles enchendo uma taça do que ele pensava ser um vinho. Aparentava ter uns trinta e cinco anos. O mais novo deveria ter uns cinco anos a menos.

Cento e… cinquenta? - balbuciou o proprietário.

Cala a boca! Você vai fazer negócio comigo. E qual é a de vocês? Não deveriam estar na guerra?

Vocês também. Um brinde aos desertores! Hum… O vinho até que é bom.

Vocês não tem cento e cinquenta mil ai com vocês. Ou tem?

Claro que não. Está no banco. Mas dou minha palavra em garantia.

Os meninos maus riram. O proprietário até que não.

Bem, eu tenho trinta e cinco aqui comigo em moedas de ouro.

Trinta e cinco? - murmurou o jovem mais velho. – Nada como um aumento de demanda para valorizar o negócio.

Que interesse vocês tem nesse lugar? - perguntou o proprietário, com a curiosidade já mais forte que o medo.

O mais novo dos jovens saiu de detrás do balcão e encostou um banco à parede. Depois rolou uma velha roda de carroça e colocou em cima dele. Em seguida, ajeitou como pode algumas garrafas apoiadas nos aros da roda.

O que ele está fazendo? - perguntou o capanga deixando de lado o cachimbo. A presença daqueles dois o estava incomodando. E ainda se atreveram a fazer uma oferta alta daquelas? Sua vontade era simplesmente sacar o revólver e matá-los ali mesmo. Isso, com certeza, seria um incentivo ao proprietário vender o estabelecimento. Mas não podia simplesmente matá-los assim. Precisava de mais informações. E se eles não fossem desertores? E se o governo, cansado de pagar altos preços pelo carvão, tivesse finalmente enviado homens para aquela região. Poderia até mesmo haver soldados lá fora.

Ele está relembrando os velhos tempos de infância. Costumávamos vir aqui com nosso pai e seus amigos. Eles costumavam jogar esse jogo. Ele disse que uma pesquisa revelou que uma bala em cada dez acerta o alvo.

Pesquisaram os mortos.

Concordo.


Uma bala em cada dez acerta o alvo, meus filhos. Os revólveres em suas mãos só tem seis balas. Se a bala que acerta não estiver aí, vocês estão mortos. Se seus inimigos foram dois, vocês estão mortos. Treinem até que seus saques sejam mais rápidos que o piscar de seus inimigos. Treinem até que as seis balas atinjam o alvo.


O jogo é: estando do outro lado do salão, quantas garrafas consegue atingir antes que suas balas acabem? Não deve ser difícil. Dá uma distância de uns onze metros.

Quatorze. - corrigiu o proprietário.

Ele lembrava desse jogo. E das pessoas que o jogavam.

O mais velho fez menção de começar o jogo. Mas não pareceu boa ideia aos maus deixar aqueles dois sacarem as armas.

Por favor, nos permita começar. - e o sujeito fez sinal a um dos seus capangas que fosse até ao outro lado do armazém. Nada como uma pequena demonstração de força para intimidar aqueles dois. Assim que sentissem medo, o domínio da situação estaria garantido.

O mais velho fez um aceno permissivo e o mais novo voltou para perto dele. Os dois permaneciam calmos e relaxados. Mas não passou despercebido ao proprietário que o olhar dos dois estavam atentos a cada detalhe. Apesar de serem cinco os inimigos, aqueles dois tinham ciência da posição e do que cada um estava fazendo.

Seis disparos. Três garrafas quebradas.

Nada mau. - comentou o mais velho. – Morte à metade de seus inimigos. O exército está perdendo um bom soldado. - e enchendo uma caneca do que parecia ser uma boa cerveja, empurrou para o bom atirador.

Rapidamente um outro se posicionou para os disparos. Via-se claramente em seu rosto o desprezo pelo resultado do colega e que estava disposto a mostrar que era melhor.

O proprietário não tirava os olhos do jovem mais velho.

Cento e cinquenta mil é muito dinheiro. - comentou.

É sim. - respondeu o jovem.

Seis tiros. Quatro garrafas quebradas e uma gargalhada.

Vendido.

O quê?! - gritou o líder dos bandidos sacando a arma.

Mas antes que pudesse apontá-la, fora atingido pelo mais novo, enquanto o mais velho atingia os outros dois capangas.


Saquem e deem dois tiros em menos de dois segundos atingindo dois alvos.

Pai, isso é impossível.

Em resposta o pai sacou o revólver e deu três tiros em menos de dois segundos e atingindo o alvo.

Não, não é. Só tem que aprender a técnica e repeti-la até que se torne automática.


Os outros dois, que descarregaram as armas e não recarregaram, foram só rendidos e amarrados. O chefe deles estava agonizando no chão, sem entender direito o que acontecera. Cadê seus homens que vigiavam o lado de fora? Bem. Já sabia a resposta. Fora tolo em não se perguntar como aqueles dois passaram por eles.

Lembro de vocês. - disse o proprietário se aproximando dos dois jovens. – E do pai de vocês. Era um homem esperto. Dizia se for atacar o inimigo, tenha um plano. Um plano que inclua uma distração. Percebi que vocês tinham um plano quando empurrou a cerveja para aquele capanga. Queria distraí-lo, ganhar tempo antes que recarregasse o revólver enquanto o segundo descarregava.

Sim. E você captou o momento certo. Os outros três estavam de olho na gente. E você criou uma surpresa e chamou a atenção para si no instante exato. Um pouco mais e aqueles dois já teriam recarregado.

Mano, vamos. Ainda não acabou.

Não. Ainda não acabou.

Hum… Vocês não tem mesmo cento e cinquenta mil.

Vamos combinar o seguinte: assim que terminarmos, te vendo pelo mesmo preço. Tenho certeza que as coisas vão melhorar.

O que vão fazer agora?

O que você acha? E só para constar…

Saque rápido. Quatro tiros. Quatro garrafas quebradas. Mais as duas que derrubaram os capangas, seis. Seis em seis. E seu sorriso dizia: perfeito.

Exibido. - murmurou o velho.

O mais novo, em resposta, sacou seu revólver e deu apenas um tiro. Um tiro num dos pés do banco, derrubando a roda e quebrando uma dúzia de garrafas.

Ei, assim não vale!

Vale, sim. - confirmou o velho, rindo. – Seu pai teria aprovado. E por falar nele…

Já sabemos. - respondeu o mais velho se dirigindo para a saída com o irmão. – Estamos aqui por isso.

 

Revelações de uma Noite Obscura

 

Vamos minha querida.

Ouço a voz de meu marido, me levantando de junto do túmulo de minha mãe.

Não era justo. Ela ainda era nova. Não era para ter partido ainda.

Eu… eu ainda preciso dela…

Eu sei, meu amor. Mas, por enquanto, você precisa descansar.

Ele não entende. Ele não entende minha dor. Homem da cidade, bem formado, de boa família. Nunca passou pelo que eu e mamãe passamos. Lavramos esta terra para dela comer. Meu pai morreu antes de eu me entender por gente. Não se casou novamente. Não sei se não conseguira ou se realmente não queria. Sinto culpa por deixá-la sozinha nesta terra.

Sou guiada para casa. Da janela do quarto consigo ver onde ela foi enterrada. Vontade dela permanecer na terra.

Tento dormir. Acho que consegui.


Minha mãe lavrando a terra. Sol, chuva. Eu ajudando. A chuva caindo sobre mim.

Estou ajoelhada sobre o túmulo dela.

Sonhando? Não sei dizer. Muito real.

Desculpe, mãe! Me perdoe!

Ouço trovão e vozes. Olho para cima.

Vários pontos de luz e sombra parecem se digladiar.

LUCIUS E LUCIUS! COMO OUSAM PROFANAR O TÚMULO DE MINHA SERVA!

A voz parece um estrondo. Um trovão que vem de todas as partes.

À minha volta começa um turbilhão de luzes azuis, vermelhas como sangue, outras brancas. E cada uma se formava como um ser celestial com o que parecia ser espadas.

Ahhhhhhhh!

Eu grito. Meu coração acelera forte. E grito novamente. E mais forte. E fecho meus olhos. E tampo meus ouvidos. Mas continuo vendo e ouvindo.

Minha mãe falava que tinha a visão aberta ao mundo espiritual. Será isso?

Estou sonhando. Racionalizo. Seres espirituais não usariam espadas. Não faz sentido. Não podem morrer. Não se ferem. São só espíritos. E espíritos não existem.

Isso mesmo. Você está sonhando, minha filha.

Olho e vejo minha mãe.

Não a engane!

Ahh! - grito novamente ao ver uma lâmina de espada acertando minha mãe. E novamente grito ao vê-la sumir e em seu lugar surgir uma figura de homem vermelho e de chifres.

Que maldade! - diz o homem vermelho se levantando. – Não sou assim. - e vejo agora um homem elegante de terno e gravata. – Ah, já ia me esquecendo. - e surgiu uma barba no estilo “Rei Leônidas de Sparta” (como sei esse nome?). – Você sabe. Tá na moda.

Não podes esconder quem você é!

Meu ex-irmão de luz… Só sou para os outros o que eles esperam que eu seja. Eu e toda a humanidade faz isso.

Só os que aprenderam contigo.

Ui! Isso foi uma pontinha de inveja, não foi?

Os dois ficam a minha frente. O ser branco sempre de espada em punho.

Em volta a batalha continuava. Nenhum artista renascentista conseguiria reproduzir o que agora eu via.

O que… O que é… isso! -grito

UMA INOCENTE EM NOSSO MEIO.

Inocente. Ela não acredita em nós. Ela não acredita em VOCÊ! - grita o homem de terno, que agora se volta para mim. Seus olhos ficam vermelhos e todo o seu corpo volta a ser vermelho e com chifres. – Acredita em mim?

Ahhhhhhhh! - eu grito e começo a chorar.


– “Guarde a nossa Ângela.

– “Senhor, proteja essa nossa irmã.”


Orações? Para ela?! Ela não crê! Ela só vai à igreja por respeito ao que a mãe lhe ensinou.

Me deixem em paz! Por que isso tudo?!


– “Mostre a ela a sua verdade, Senhor. Mostre a ela a sua glória.”


O som de espadas e trovões continua. Mais seres se juntam à batalha.

Ela não crê. Atenda ao pedido dela e deixe-a em paz. Deixa-a voltar para a vida de um lar feliz, despreocupada com o mundo e vivendo a paz que o mundo tem a oferecer. É o que ela quer.

Não, meu Senhor. - diz o ser de branco. – Ela não sabe o que pede.

Sabe, sim. A mãe lhe mostrou a verdade e ela fez sua escolha.

Mas não entende. Ela não entende. Como pode escolher?

Penso que vou infartar. Se é sonho, quero acordar. Sinto medo. Sinto pânico em cada parte de meu corpo. Um pânico que se estende pelo chão, pelo túmulo de minha mãe e pelo ar ao redor. Me sinto no olho do furacão, com todos aqueles seres lutando entre si. Dois exércitos.

ENTENDERÁ.

O quê? Entender o quê? Me deixem em paz!

VEJA E ENTENDA.

Vejo a minha frente uma rocha posta ao lado de uma caverna. De alguma forma sei o que é. É o túmulo de Cristo.

Sinto dor aguda. Agonia jamais sentida. Vou enlouquecer. Não suporto.

Pare! Pare! Pare pelo amor de Deus!

A agonia some de repente.

SÓ LHE FOI DADO O QUE PODES SUPORTAR. O TÚMULO SÓ ESTÁ VAZIO PORQUE ELE SUPORTOU BEM MAIS.

Por quê? Por que tudo isso?!

Viu. Ela ainda não compreende. Ela não quer compreender.

VEJA E ENTENDA.

Vejo um universo que olhos nunca viram. Nem os meus. O percebo como se por outro sentido. Como um cego de nascença que não sabe o sentido da visão e de repente é curado e vê que há luz e cores no mundo. É um universo para além do maravilhoso.

Vejo os seres celestiais no que só posso chamar de cidades celestiais.

Vejo um pequeno ponto escuro no paraíso. Um ponto de escuridão que rapidamente cresce. Os seres começam a lutar. Dois generais estão face a face.

Ei, este sou eu! - olho para o lado e vejo o ser vermelho sentado, de boné, óculos 3D e comendo pipoca. – Eu era bonitão ou não era? Tinha tanta luz…

Os vencedores expulsam os perdedores. Os seres celestiais estão em paz novamente. À minha volta ouço tanto o clamor de vitória quanto vaias.

Vejo o universo conhecido surgir. Vejo a Terra. E da terra emergir um homem. Adão. E dele, Eva, a primeira mulher. E havia paz no jardim do Éden. E veio a maçã…

Sério? Vai fazê-la pensar mesmo que foi uma maçã? Que clichê!

E veio a serpente.

Minha melhor performance. - vejo e sinto uma enorme serpente me envolver em seu abraço mortal e me encarando nos olhos. – Essa parte eu falo. Se comer da “maçã”, tereis conhecimento do bem e do mal. E veio a … mordida! - e a serpente me faz comer da maça.

Ouço um estrondo. O universo se abala. A escuridão cobre o jardim. A paz some. O leão pula em cima da gazela. A cobra pica o cordeiro e este pisa em sua cabeça. Gargalhadas são dadas ao meu redor, e vejo muitos olhos vermelhos me encarando.

A maça é doce na boca, mas desce queimando até ao estômago.

A serpente não mentiu. O bem já era conhecido. Quando desobedeceram, quando comeram da fruta, conheceram o mau. Agora conheciam os dois. Conheciam o bem e o mal.

Sim! - grita o ser vermelho, parecendo duas vezes maior. – Agora a criação, TODA a criação faz parte comigo na queda. Esse foi o dia mais feliz da minha infinita vida!

Mas agora eles tem o túmulo vazio. - o ser de branco finalmente fala.

Sim, eles tem. Eles tem uma segunda chance negada a nós, os primeiros! Não vou deixar que a peguem.

O… túmulo… vazio?

Sinto uma dor enorme no estômago. Um peso. Uma agonia.

Vejam! Ela ainda não entendeu!

VEJA E ENTENDA.

Vejo Eva tendo filhos e filhos. E os filhos tendo filhos e filhos. E em cada um deles, a maça no ventre. E vejo um homem matando um gigante. E seus filhos gerando filhos e filhos. E um filho nasce sem a maça no ventre.

Todas os seres de sombra se enfurecem e avançam para cima dele. Mas não conseguem chegar perto. A luz emanada dele os repele.

Ele cresce e anda e retira a maça do ventre dos filhos dos homens. E estes seguem retirando as maças dos ventres dos outros filhos dos homens.

Sinto uma mão invadindo meu ventre. A maçã é retirada e sinto grande alívio. Não O vejo, mas sinto a presença Dele ao redor.

O que… queres… de mim?

VEJA E ENTENDA.

Ergo os olhos e vejo outros caídos ao chão, com dores no ventre. Todos estão com a maçã.

Tire-as deles! -suplico.

Tola, inocente. - ri o ser de vermelho. – Eles não querem. Eles preferem a maçã. Ela é bonita. Ela seduz. É doce ao paladar. E até mata a fome.

E a dor? - surpresa, me vejo argumentando com aquele ser nefasto.

Enquanto ganharem mais maçãs, não se importarão com a dor. Estão iludidos. Pensam que os prazeres da maça curam a dor. É até verdade, de início. Pelo prazer, não querem se lembrar que é a maça que causa a dor. Abrir mão da dor é abrir mão do prazer.

VÁ E ENTENDA.

Uma mão me ajuda a levantar e me leva até aos homens prostrados pela dor. Só um deles aceita minha ajuda. E, orientada por um espírito, digo algumas palavras e a maça sai do homem e é sugada pelo o túmulo vazio. E ele segue, tentando ajudar os outros.

Por um instante me sinto bem. Mas logo sinto uma paulada nas costas e um soco no rosto. Me vejo caída ao chão. Me ergo depressa e começo a correr. Me sinto perseguida. Me escondo em um beco. Em uma poça de água me vejo envelhecida pelo tempo e esforço.

É isso mesmo. - surge o rosto vermelho na poça. – ELE quer que você abra a mão de sua vida para ajudar quem nem quer ser ajudado! ELE quer te afastar de seu marido e dos filhos que você quer ter. Tudo por uma guerra perdida.

Caio de joelhos, sem forças.


– “Dei-lhe forças, Senhor. Amém”


Quero acordar.

Isso tudo é só um pesadelo. Isso é fruto de luto. A dor, a angustia, é tudo fruto do luto. Estou só sonhando. Só sonhando.

Me deixem em paz! Me deixem em paz! Me deixem em paz! Eu não acredito em nada disso!!!!


Querida. Querida! O que está fazendo aqui fora?

Abro os olhos e vejo meu marido.

É… você?

Sim, minha querida. Acordei e não te vi ao meu lado. Procurei pela casa toda.

Tive um… pesadelo.

E veio parar no túmulo de sua mãe… É até compreensível. Mas quando voltarmos para a cidade, vamos procurar um médico para esse seu sonambulismo.

Sigo com ele a caminho da casa. Olho em volta para ver se está tudo bem. Só em minha mente é que as vozes reverberam.


Ela entendeu. Mas ainda duvida. Está caminhando em cima do muro. E, como você sabe, meu ex-irmão, o muro me pertence.

Por que não pega logo seus soldados e não volta para o inferno?

Que foi? Não gosta de meu visual de terno e gravata? Deveria experimentar. Esse visual de branco eterno já tá batido e cansa a vista que só.

Minha espada ainda está flamejando…

Ok. Fui. Mau perdedor…


Ele está certo, Senhor. Ela duvida.

ERGA OS OLHOS E VEJA.

O ser de luz ergueu seus olhos e viu seres da escuridão seguindo Ângela.

Mas o quê…

QUEM ESTÁ NO MURO, SEMPRE TEM A CHANCE DE ESCOLHER O LADO CERTO. E MEUS ESCOLHIDOS SEMPRE ESCOLHEM O LADO CERTO. E ELES SABEM DISSO. E TENTARAM DE TUDO PARA IMPEDIR.


– “Envie anjos, Senhor, para protegê-las.”

– “Guarde-a de todo o mal”


PEGUE AS ORAÇÕES, FORTALEÇA SUA ESPADA COM ELAS E VÁ!

Sim, Senhor!!!

Sempre Acerte o Alvo

  – Então, como vai ser? Pensou na nossa oferta? Ele fez a pergunta enquanto acendia o velho cachimbo. Deu uma boa tragada e soltou bem...