Revelações de uma Noite Obscura

 

Vamos minha querida.

Ouço a voz de meu marido, me levantando de junto do túmulo de minha mãe.

Não era justo. Ela ainda era nova. Não era para ter partido ainda.

Eu… eu ainda preciso dela…

Eu sei, meu amor. Mas, por enquanto, você precisa descansar.

Ele não entende. Ele não entende minha dor. Homem da cidade, bem formado, de boa família. Nunca passou pelo que eu e mamãe passamos. Lavramos esta terra para dela comer. Meu pai morreu antes de eu me entender por gente. Não se casou novamente. Não sei se não conseguira ou se realmente não queria. Sinto culpa por deixá-la sozinha nesta terra.

Sou guiada para casa. Da janela do quarto consigo ver onde ela foi enterrada. Vontade dela permanecer na terra.

Tento dormir. Acho que consegui.


Minha mãe lavrando a terra. Sol, chuva. Eu ajudando. A chuva caindo sobre mim.

Estou ajoelhada sobre o túmulo dela.

Sonhando? Não sei dizer. Muito real.

Desculpe, mãe! Me perdoe!

Ouço trovão e vozes. Olho para cima.

Vários pontos de luz e sombra parecem se digladiar.

LUCIUS E LUCIUS! COMO OUSAM PROFANAR O TÚMULO DE MINHA SERVA!

A voz parece um estrondo. Um trovão que vem de todas as partes.

À minha volta começa um turbilhão de luzes azuis, vermelhas como sangue, outras brancas. E cada uma se formava como um ser celestial com o que parecia ser espadas.

Ahhhhhhhh!

Eu grito. Meu coração acelera forte. E grito novamente. E mais forte. E fecho meus olhos. E tampo meus ouvidos. Mas continuo vendo e ouvindo.

Minha mãe falava que tinha a visão aberta ao mundo espiritual. Será isso?

Estou sonhando. Racionalizo. Seres espirituais não usariam espadas. Não faz sentido. Não podem morrer. Não se ferem. São só espíritos. E espíritos não existem.

Isso mesmo. Você está sonhando, minha filha.

Olho e vejo minha mãe.

Não a engane!

Ahh! - grito novamente ao ver uma lâmina de espada acertando minha mãe. E novamente grito ao vê-la sumir e em seu lugar surgir uma figura de homem vermelho e de chifres.

Que maldade! - diz o homem vermelho se levantando. – Não sou assim. - e vejo agora um homem elegante de terno e gravata. – Ah, já ia me esquecendo. - e surgiu uma barba no estilo “Rei Leônidas de Sparta” (como sei esse nome?). – Você sabe. Tá na moda.

Não podes esconder quem você é!

Meu ex-irmão de luz… Só sou para os outros o que eles esperam que eu seja. Eu e toda a humanidade faz isso.

Só os que aprenderam contigo.

Ui! Isso foi uma pontinha de inveja, não foi?

Os dois ficam a minha frente. O ser branco sempre de espada em punho.

Em volta a batalha continuava. Nenhum artista renascentista conseguiria reproduzir o que agora eu via.

O que… O que é… isso! -grito

UMA INOCENTE EM NOSSO MEIO.

Inocente. Ela não acredita em nós. Ela não acredita em VOCÊ! - grita o homem de terno, que agora se volta para mim. Seus olhos ficam vermelhos e todo o seu corpo volta a ser vermelho e com chifres. – Acredita em mim?

Ahhhhhhhh! - eu grito e começo a chorar.


– “Guarde a nossa Ângela.

– “Senhor, proteja essa nossa irmã.”


Orações? Para ela?! Ela não crê! Ela só vai à igreja por respeito ao que a mãe lhe ensinou.

Me deixem em paz! Por que isso tudo?!


– “Mostre a ela a sua verdade, Senhor. Mostre a ela a sua glória.”


O som de espadas e trovões continua. Mais seres se juntam à batalha.

Ela não crê. Atenda ao pedido dela e deixe-a em paz. Deixa-a voltar para a vida de um lar feliz, despreocupada com o mundo e vivendo a paz que o mundo tem a oferecer. É o que ela quer.

Não, meu Senhor. - diz o ser de branco. – Ela não sabe o que pede.

Sabe, sim. A mãe lhe mostrou a verdade e ela fez sua escolha.

Mas não entende. Ela não entende. Como pode escolher?

Penso que vou infartar. Se é sonho, quero acordar. Sinto medo. Sinto pânico em cada parte de meu corpo. Um pânico que se estende pelo chão, pelo túmulo de minha mãe e pelo ar ao redor. Me sinto no olho do furacão, com todos aqueles seres lutando entre si. Dois exércitos.

ENTENDERÁ.

O quê? Entender o quê? Me deixem em paz!

VEJA E ENTENDA.

Vejo a minha frente uma rocha posta ao lado de uma caverna. De alguma forma sei o que é. É o túmulo de Cristo.

Sinto dor aguda. Agonia jamais sentida. Vou enlouquecer. Não suporto.

Pare! Pare! Pare pelo amor de Deus!

A agonia some de repente.

SÓ LHE FOI DADO O QUE PODES SUPORTAR. O TÚMULO SÓ ESTÁ VAZIO PORQUE ELE SUPORTOU BEM MAIS.

Por quê? Por que tudo isso?!

Viu. Ela ainda não compreende. Ela não quer compreender.

VEJA E ENTENDA.

Vejo um universo que olhos nunca viram. Nem os meus. O percebo como se por outro sentido. Como um cego de nascença que não sabe o sentido da visão e de repente é curado e vê que há luz e cores no mundo. É um universo para além do maravilhoso.

Vejo os seres celestiais no que só posso chamar de cidades celestiais.

Vejo um pequeno ponto escuro no paraíso. Um ponto de escuridão que rapidamente cresce. Os seres começam a lutar. Dois generais estão face a face.

Ei, este sou eu! - olho para o lado e vejo o ser vermelho sentado, de boné, óculos 3D e comendo pipoca. – Eu era bonitão ou não era? Tinha tanta luz…

Os vencedores expulsam os perdedores. Os seres celestiais estão em paz novamente. À minha volta ouço tanto o clamor de vitória quanto vaias.

Vejo o universo conhecido surgir. Vejo a Terra. E da terra emergir um homem. Adão. E dele, Eva, a primeira mulher. E havia paz no jardim do Éden. E veio a maçã…

Sério? Vai fazê-la pensar mesmo que foi uma maçã? Que clichê!

E veio a serpente.

Minha melhor performance. - vejo e sinto uma enorme serpente me envolver em seu abraço mortal e me encarando nos olhos. – Essa parte eu falo. Se comer da “maçã”, tereis conhecimento do bem e do mal. E veio a … mordida! - e a serpente me faz comer da maça.

Ouço um estrondo. O universo se abala. A escuridão cobre o jardim. A paz some. O leão pula em cima da gazela. A cobra pica o cordeiro e este pisa em sua cabeça. Gargalhadas são dadas ao meu redor, e vejo muitos olhos vermelhos me encarando.

A maça é doce na boca, mas desce queimando até ao estômago.

A serpente não mentiu. O bem já era conhecido. Quando desobedeceram, quando comeram da fruta, conheceram o mau. Agora conheciam os dois. Conheciam o bem e o mal.

Sim! - grita o ser vermelho, parecendo duas vezes maior. – Agora a criação, TODA a criação faz parte comigo na queda. Esse foi o dia mais feliz da minha infinita vida!

Mas agora eles tem o túmulo vazio. - o ser de branco finalmente fala.

Sim, eles tem. Eles tem uma segunda chance negada a nós, os primeiros! Não vou deixar que a peguem.

O… túmulo… vazio?

Sinto uma dor enorme no estômago. Um peso. Uma agonia.

Vejam! Ela ainda não entendeu!

VEJA E ENTENDA.

Vejo Eva tendo filhos e filhos. E os filhos tendo filhos e filhos. E em cada um deles, a maça no ventre. E vejo um homem matando um gigante. E seus filhos gerando filhos e filhos. E um filho nasce sem a maça no ventre.

Todas os seres de sombra se enfurecem e avançam para cima dele. Mas não conseguem chegar perto. A luz emanada dele os repele.

Ele cresce e anda e retira a maça do ventre dos filhos dos homens. E estes seguem retirando as maças dos ventres dos outros filhos dos homens.

Sinto uma mão invadindo meu ventre. A maçã é retirada e sinto grande alívio. Não O vejo, mas sinto a presença Dele ao redor.

O que… queres… de mim?

VEJA E ENTENDA.

Ergo os olhos e vejo outros caídos ao chão, com dores no ventre. Todos estão com a maçã.

Tire-as deles! -suplico.

Tola, inocente. - ri o ser de vermelho. – Eles não querem. Eles preferem a maçã. Ela é bonita. Ela seduz. É doce ao paladar. E até mata a fome.

E a dor? - surpresa, me vejo argumentando com aquele ser nefasto.

Enquanto ganharem mais maçãs, não se importarão com a dor. Estão iludidos. Pensam que os prazeres da maça curam a dor. É até verdade, de início. Pelo prazer, não querem se lembrar que é a maça que causa a dor. Abrir mão da dor é abrir mão do prazer.

VÁ E ENTENDA.

Uma mão me ajuda a levantar e me leva até aos homens prostrados pela dor. Só um deles aceita minha ajuda. E, orientada por um espírito, digo algumas palavras e a maça sai do homem e é sugada pelo o túmulo vazio. E ele segue, tentando ajudar os outros.

Por um instante me sinto bem. Mas logo sinto uma paulada nas costas e um soco no rosto. Me vejo caída ao chão. Me ergo depressa e começo a correr. Me sinto perseguida. Me escondo em um beco. Em uma poça de água me vejo envelhecida pelo tempo e esforço.

É isso mesmo. - surge o rosto vermelho na poça. – ELE quer que você abra a mão de sua vida para ajudar quem nem quer ser ajudado! ELE quer te afastar de seu marido e dos filhos que você quer ter. Tudo por uma guerra perdida.

Caio de joelhos, sem forças.


– “Dei-lhe forças, Senhor. Amém”


Quero acordar.

Isso tudo é só um pesadelo. Isso é fruto de luto. A dor, a angustia, é tudo fruto do luto. Estou só sonhando. Só sonhando.

Me deixem em paz! Me deixem em paz! Me deixem em paz! Eu não acredito em nada disso!!!!


Querida. Querida! O que está fazendo aqui fora?

Abro os olhos e vejo meu marido.

É… você?

Sim, minha querida. Acordei e não te vi ao meu lado. Procurei pela casa toda.

Tive um… pesadelo.

E veio parar no túmulo de sua mãe… É até compreensível. Mas quando voltarmos para a cidade, vamos procurar um médico para esse seu sonambulismo.

Sigo com ele a caminho da casa. Olho em volta para ver se está tudo bem. Só em minha mente é que as vozes reverberam.


Ela entendeu. Mas ainda duvida. Está caminhando em cima do muro. E, como você sabe, meu ex-irmão, o muro me pertence.

Por que não pega logo seus soldados e não volta para o inferno?

Que foi? Não gosta de meu visual de terno e gravata? Deveria experimentar. Esse visual de branco eterno já tá batido e cansa a vista que só.

Minha espada ainda está flamejando…

Ok. Fui. Mau perdedor…


Ele está certo, Senhor. Ela duvida.

ERGA OS OLHOS E VEJA.

O ser de luz ergueu seus olhos e viu seres da escuridão seguindo Ângela.

Mas o quê…

QUEM ESTÁ NO MURO, SEMPRE TEM A CHANCE DE ESCOLHER O LADO CERTO. E MEUS ESCOLHIDOS SEMPRE ESCOLHEM O LADO CERTO. E ELES SABEM DISSO. E TENTARAM DE TUDO PARA IMPEDIR.


– “Envie anjos, Senhor, para protegê-las.”

– “Guarde-a de todo o mal”


PEGUE AS ORAÇÕES, FORTALEÇA SUA ESPADA COM ELAS E VÁ!

Sim, Senhor!!!

Sempre Acerte o Alvo

  – Então, como vai ser? Pensou na nossa oferta? Ele fez a pergunta enquanto acendia o velho cachimbo. Deu uma boa tragada e soltou bem...